Como preparar profissionais para situações complexas, que exigem conhecimento, raciocínio clínico, tomada de decisão e segurança? Essa é uma das grandes questões que desafiam a educação em saúde. E é justamente nesse cenário que a Simulação Clínica se consolida como uma poderosa estratégia para aproximar o estudante da realidade profissional, antes que ele esteja diante dela.
No artigo “Simulação realística e escape room como estratégias ativas combinadas no ensino da assistência de enfermagem em sepse e ferida infectada”, publicado no Global Academic Nursing Journal em 2026, descrevemos uma experiência educacional que integrou duas metodologias ativas: a Simulação Realística e o Escape Room, aplicadas ao ensino da assistência de enfermagem ao paciente crítico.
A proposta foi construída a partir de objetivos de aprendizagem fundamentados na Taxonomia de Bloom, roteiro validado e referenciais reconhecidos internacionalmente para o desenho de experiências de simulação, incluindo a Teoria de Jeffries e os Padrões de Melhores Práticas para Simulação em Saúde da INACSL. O cenário utilizou simulador de média fidelidade, manequins e técnicas de moulage, enquanto o Escape Room foi estruturado em estações relacionadas à interpretação de sinais vitais, realização de curativo e registros de enfermagem.
Mas talvez a principal mensagem dessa experiência esteja além da tecnologia utilizada.
Simular é preparar para cuidar
A Simulação Clínica permite que o estudante pense, faça, erre, reflita, receba feedback e tente novamente em um ambiente seguro. Isso transforma o processo de aprendizagem.
Em situações como sepse e feridas infectadas, não basta memorizar protocolos. O futuro profissional precisa reconhecer sinais, interpretar informações, priorizar condutas, comunicar-se com a equipe e tomar decisões em um contexto de pressão.
É justamente essa integração entre conhecimento, habilidades técnicas e competências comportamentais que torna a Simulação tão relevante para a formação profissional.
Na experiência relatada, observamos elevado engajamento e aprimoramento do raciocínio clínico, além de maior segurança nas tomadas de decisão e comunicação mais assertiva. A combinação das estratégias também favoreceu a retenção do conhecimento e o desenvolvimento de recursos para lidar com o estresse inerente à prática profissional.
E onde entra o professor?
Uma experiência de Simulação Clínica de qualidade não acontece simplesmente porque existe um simulador ou um laboratório equipado.
O elemento central continua sendo o professor.
É o docente que transforma uma situação clínica em uma experiência de aprendizagem intencional. É ele quem define os objetivos, constrói o cenário, seleciona os recursos, estabelece os critérios de avaliação, conduz a experiência e, principalmente, promove o debriefing capaz de transformar a experiência vivenciada em aprendizagem.
Por isso, investir em Simulação Clínica significa também investir na formação e no desenvolvimento contínuo dos docentes.
No estudo, o debriefing foi conduzido utilizando a abordagem PEARLS e apoiado por checklist de desempenho. Essa etapa é fundamental: não basta vivenciar o cenário. É preciso criar espaço para que o estudante compreenda o que aconteceu, analise suas decisões, reconheça seus acertos e identifique oportunidades de melhoria.
O potencial da metodologia vai muito além do laboratório
A experiência apresentada demonstra que a Simulação Clínica pode ser combinada a outras estratégias inovadoras, como a gamificação, ampliando as possibilidades de engajamento e aprendizagem.
Mais do que ensinar um procedimento, podemos criar experiências que desenvolvam raciocínio clínico, pensamento crítico, comunicação, trabalho em equipe, tomada de decisão e segurança profissional.
Esse é, para mim, um dos maiores potenciais da Simulação Clínica: ela não prepara apenas para executar uma técnica; prepara para pensar e agir diante da complexidade do cuidado.
Quando bem planejada e conduzida por docentes preparados, a metodologia deixa de ser apenas uma atividade prática e passa a ocupar um lugar estratégico no currículo e na formação de profissionais mais seguros, críticos e preparados para a realidade assistencial.
A experiência descrita no artigo reforça, portanto, uma convicção que considero essencial: a inovação na educação em saúde não está apenas em utilizar novas tecnologias, mas em utilizar metodologias fundamentadas cientificamente para produzir experiências de aprendizagem significativas.
E, nesse caminho, a Simulação Clínica tem um papel fundamental.
Para saber mais sobre essa experiência e conhecer todos os detalhes da metodologia, resultados e referenciais utilizados, acesse o artigo na íntegra:
Simulação realística e escape room como estratégias ativas combinadas no ensino da assistência de enfermagem em sepse e ferida infectada — Global Academic Nursing Journal
Oliveira DL de L, Calixto LM, Prata RA, et al. Global Academic Nursing Journal. 2026;7(1):e537. DOI: 10.5935/2675-5602.20200537.